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Licença para buscar um James Bond mais profundo segunda-feira 10 dezembro, 2007

Posted by Dude in Cinema, Matérias.
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O texto abaixo foi publicado ontem no jornal The New York Times, nele Marc Foster, diretor do próximo filme do agente 007 fala sobre como foi seu primeiro contato com o personagem, como o enxerga para a continuidade da franquia e conta ainda sobre a experiência de ter feito a adaptação para as telonas do bestseller O Caçador de Pipas.

Mark Foster

Por TERRENCE RAFFERTY

Traduzido e adaptado por Davi Garcia

“Eu realmente não lembro qual foi o primeiro filme de James Bond que vi”, disse o homem magro e de fala mansa no sofá da suíte da Waldorf Towers. Com um leve sotaque alemão, ele acrescentou: “Acho que foi em meados dos anos 80, porque não havia televisão na minha casa, e eu não via muitos filmes até então. Roger Moore estava nele, eu acho”.

Provavelmente é justo dizer que ninguém que viu “Octopussy”em 1983 ou “A View to a Kill” (Na Mira dos Assassinos) dois anos depois, os dois últimos dos sete filmes estrelados por Moore como 007, guarda uma memória vívida disso. A afirmação do homem é um pouco surpreendente, simplesmente porque ele é Marc Foster, o cineasta que irá dirigir a próxima investida da franquia de ação mais longeva do cinema, e que por enquanto é conhecida como “Bond 22”.

Foster, cujo segundo filme, a história de amor interracial “Monster Ball” (A Última Ceia) de 2001, rndeu um Oscar de melhor atriz à Halle Berry, e cujo terceiro, “Finding Neverland”(Em Busca da Terra do Nunca) de 2004, recebeu sete indicações, incluindo melhor filme, está em Nova York promovendo seu sexto e mais recente filme, “The Kite Runner” (O Caçador de Pipas), adaptação do best selller de Khaled Hossein que se passa no Afeganistão.

“O Caçador de Pipas foi um filme muito difícil de fazer, emocionalmente e fisicamente”, disse Foster. “Estávamos filmando em uma parte muito remota da China, fazendo tudo através de tradutores porque haviam quatro línguas – inglês, mandarin, e duas línguas afegãs, o dari e um pouco de pashto. Estávamos tão distantes de tudo que haviam atrasos constantes para conseguir mais rolos de filme e mesmo comida. Além disso estávamos em altitudes extremamente altas, dormindo em cabanas, e à noite ficava muito frio. A experiência toda foi muito cansativa”.

E os problemas não terminaram com as gravações. O temor pela segurança dos dois garotos afegãos envolvidos em uma cena de estupro forçou o adiamento do lançamento do filme até os garotos conseguirem se mudar de Kabul. (Eles agora estão nos Emirados Árabes)

Por tudo isso, Foster deve ser um dos poucos diretores de cinema disponíveis para quem a complexa logística de um filme de Jamres Bond soe como um grande alívio.

No dia seguinte à entrevista, ele foi ao Panamá na intenção de ver possíveis locações para “Bond 22”. (Algumas semanas mais tarde, por telefone de Londres, ele disse que a viagem incluiu uma esticada ao Chile, e um sobrevôo no Brasil). Àquela altura ele esperava receber o novo rascunho do roteiro escrito por Paul Haggins, antes da greve dos roteiristas estourar, e o cronograma indicava que as filmagens começariam em meados de dezembro. O roteiro acabou chegando duas antes da greve começar, e Foster estava bastante entusiasmado. “É um roteiro que eu posso filmar”, disse ele.

Mas é uma coisa complicada ser diretor de um filme de Bond, o que deve explicar porque durante as três primeiras décadas da franquia, poucos ganharam a oportunidade de trabalhar com aquele universo. Entre o debut do agente com licença para matar do MI6 criado por Ian Fleming em “Dr. No” (1962) a “License to Kill” em 1989, o comandante da franquia, Albert R. Broccoli, dono da Eon Productions, lançou 16 filmes de Bond, sendo que todos com exceção de um, foram dirigidos por nomes como Terence Young, Guy Hamilton, Lewis Gilbert ou John Glen; a única exceção foi “On Her Majesty’s Secret Service”(1969), dirigido por Peter Hunt, que dirigira a segunda unidade de vários filmes anteriores. A indústria chamada Bond era um clube bem fechado, ou para colocar um tom mais sinistro, uma organização com os moldes da Spectre – cujos segredos não deviam ser divididos com quem estava de fora.

Um certo, digamos, ar de segredo ainda se aplica. Tudo o que Foster pode dizer sobre a trama de “Bond 22” é o que já foi divulgado. O clube porém, já não é mais tão exclusivo como era. Foster é suiço, o que faz dele, (e ele nota isso com certo orgulho), o primeiro diretor fora do reino unido com a honra de receber a missão de guiar o veículo chamado Bond até seu (presumivelmente lucrativo) destino. (Talvez os mantenedores da chama de 007 acreditem que Foster, assim como os banqueiros de sua terra natal, seja bem discreto). E ele é, admite logo, “não sou um diretor de filmes de ação”. Além dos filmes “A Última Ceia”, “O Caçador de Pipas” e “Em Busca da Terra do Nunca” (sobre James M. Barrie e Peter Pan), seu currículo traz a comédia de auto reflexão “Mais estranho que a ficção”de 2006, e dramas de horror psicológico como “Everything Put Together” (2001) e “Stay” (2005).

A habilidade de gerar suspense usando alguns dos estados emocionais mais incomuns podem serví-lo bem em sua nova tarefa, porque Bond, conforme a encarnação mais recente de Daniel Craig em “Casino Royale” de 2006, parece, como diz Foster, “muito isolado, um homem ferido e perturbado em algum sentido”. O Bond de Craig é para ele, “uma interpretação completamente nova do personagem”, disse ele. “Esse James Bond é mais sombrio, mais atormentado. Ele é mais humano, em um certo sentido”.

E isso, disse ele, é a qualidade que permitirá que a franquia continue. “Nos anos 60 e 70, quando Sean Connery e Roger Moore faziam o papel, grande parte do apelo dos filmes de James Bond eram as locações exóticas, mas isso já não é mais um atrativo”, afirmou Foster. “As pessoas viajam muito mais agora, e com a internet sabem como o resto do mundo é. Dessa forma, o destino mais interessante para um filme de James Bond é buscar o interior do personagem”.

Sua menção aos filmes dos anos 60 e a Sean Connery foram um lembrete e tanto de que muito além de seu status de ‘não britânico’, o que realmente o separa de todos os diretores anteriores dos filmes de Bond, é o fato de que ele é o primeiro a ter nascido depois do período mais popular da série. Os canônicos filmes de Bond feitos por Connery – “Dr. No,” “From Russia With Love,” “Goldfinger,” “Thunderball” e “You Only Live Twice” – já eram história quando Foster chegou ao mundo em 1969.

A Guerra Fria de onde este sofisticado e impecavelmente vestido super espião emergiu, ainda continuou por mais duas décadas, mas a plausibilidade de Moore como o salvador do mundo livre (ele assumiu o papel em 1973) era consideravelmente menos potente que a de Connery; e em função disso, o valor fantástico de 007 à época em que Foster viu seu primeiro Bond, estava significativamente diminuído. A ascensão do feminismo trouxe a tendência de tornar o comportamento hedonista do charmoso agente, que habitou o imaginário de muitas jovens, um pouco suspeito.

E isso pode ter sido o único problema de difícil solução da série: como manter Bond sexy sabendo que as mulheres – mesmo as mais ‘saidinhas’ – podiam ter como propósito, o plano de ter em suas camas o servo britânico de boas feições. “Quando comecei a ver os filmes”, Foster disse, “seus realizadores realmente nem se importavam com isso. Acho que quando tentaram distanciar-se do velho estilo de atitudes sexuais pré-feminismo, eles apenas tiraram o foco do sexo e colocaram nos acessórios inventivos, os chamados gadgets”.

Quando o trabalho lhe foi oferecido, Foster disse, “Eu fiquei surpreso, e precisei pensar muito se queria fazer ou não. Não tenho certeza se seria capaz de encontrar um caminho novo para Bond antes de Daniel Craig tê-lo re-inventado”. Mas sua intuição lhe disse, no final, que aceitasse o desafio, o tipo de intuição que até agora resultou em uma filmografia variada e isso ele admite, não é algo que ele compreenda totalmente.

“Eu apenas tenho a sensação sobre algo”, disse ele. “Com ‘O Caçador de Pipas’, a história me moveu, e eu não sabia ao certo porque. O pai do personagem principal quer que ele se torne médico, mas acaba morrendo de câncer. E até ver o filme eu não havia me dado conta que o meu pai queria que eu fosse médico e morreu de câncer. Honestamente, isso não me ocorreu até que o filme estivesse finalizado, mas isso deve ter tido algum efeito”.

O fato de ser o primeiro diretor de um filme de Bon que é jovem demais para se lembrar dos originais não o assombraram, até isso ser apontado para ele. Isso deve ser a coisa mais interessante sobre esse casamento não intuitivo entre cineasta e filme: Depois de mais de 45 anos de 007, finalmente vamos ver como esse guerreiro usando smoking é através dos olhos de um diretor cujos pontos de referência não são “The 39 Steps” e “North by Northwest” mas sim “Aliens” e “Duro de Matar”. (Esses são os filmes que Foster aponta como alguns de seus filmes de ação favoritos.) Como James Bond pode atingir alguém para quem o personagem não só é meramente mítico, mas remotamente mítico, como Beowulf?

Mas Marc Foster tem uma outra idéia sobre os motivos que o qualificam como a escolha certa para fazer “Bond 22”, e porque esse é o filme certo para ele. “Vocês sabem, a mãe de James Bond é suíça”, disse ele. “Isso fará tudo valer a pena”. E ele parecia arquear uma sobrancelha ao dizer isso.

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